Muitos anos de vida

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Foto: Maria Sampaio/Divulgação

Dona Canô faz 98 anos. Santo Amaro da Purificação está em festa


É uma casinha modesta, de paredes brancas e janelas azuis. O número 179 da rua do Amparo, na pequenina Santo Amaro, interior da Bahia, é tão simples quanto a moradora, uma senhora de 98 anos, um metro e meio de altura, batizada com nome de homem: Claudionor. Ex-parteira, viúva do antigo funcionário do correio local, todos a conhecem mesmo pelo carinhoso apelido de dona Canô. Na cidade, localizada a 100 quilômetros de Salvador, ela não se tornou célebre pelo fato de ter colocado no mundo filhos ilustres, Maria Bethânia e Caetano Veloso. Ali ela é, desde sempre, uma espécie de conselheira, mãe espiritual e fada-madrinha de toda a Bahia.

No último 16 de setembro, como em todos os outros dias, dona Canô acordou junto com o nascer do sol, às cinco e meia da manhã. Fez as orações e pediu a benção à Nossa Senhora Aparecida e à Nossa Senhora da Purificação. No quarto, as muitas imagens de santos e as estatuetas de anjinhos de gesso convivem com uma coleção de guias, fios de contas coloridas, pendurados na cabeceira da cama, amuletos inconfundíveis do candomblé. A exemplo do resto da casa, não há ali nenhuma ostentação: lençóis brancos, uma cadeira de plástico, um pequeno oratório de madeira, vestidos de algodão pendurados no cabide. “Não gosto de luxo. A casa é assim, sem aparato, mas faço questão de viver cercada por lembranças de quem quero bem”, diz dona Canô, apontando os porta-retratos com as fotos dos oito filhos e do marido, José Telles Veloso, o seu Zezinho, que morreu em 1983.

Aquele dia, que mal começa, não é uma data qualquer. Dona Canô comemora seu aniversário. A cidade acordou mais cedo e agora lhe prepara uma alvorada festiva. Além do costumeiro canto dos galos da vizinhança, um coral também se faz ouvir naquele início de manhã na rua do Amparo. Ao som de fogos de artifício e de “Parabéns pra você”, dona Canô aparece na porta de casa, vestindo branco da cabeça aos pés. É saudada por uma chuva de papel picado. A aniversariante quase centenária sorri, exibindo a fileira de dentes muito miúdos. Surpreende pela lucidez e pela vitalidade. Ouve bem e, depois da operação de catarata, os olhos recuperaram parte do brilho, ajudados pelo óculos de armação prateada. Falante, convida os presentes para o café da manhã, no qual será servido um bolo com 98 velinhas acesas.

É só o começo de um longo dia, recheado de visitas, presentes, comemorações. Os buquês de flores não param de chegar. “A casa vai ficar tão cheirosa; acho isso tão bonito, tão bom”, comenta dona Canô. Os filhos planejaram enfeitar a casa inteira com angélicas, flores brancas, que a mãe adora. Mas, em poucas horas, cada um dos cômodos está ocupado por arranjos de todas as cores. O telefone não fica sem tocar um só instante. Visitas, muitas visitas. Do prefeito municipal ao cidadão mais humilde de Santo Amaro, praticamente toda a cidade vem beijar a mão de dona Canô. Todos são igualmente bem-vindos e entram sem cerimônias, pois a porta da frente está aberta. Trazem sempre uma pequena lembrança, seja um cartão, uma flor ou um simples ramo de eucalipto. “Eucalipto, além do cheiro bom, faz bem ao pulmão”, ela agradece.

Da cozinha vem um outro aroma irresistível. Isaura da Silva, 67 anos, cozinheira que trabalha para dona Canô há mais de quatro décadas, começa a cuidar dos preparativos para o almoço. “Hoje tem ensopado de camarão, moqueca de ostra, siri temperado, caldo de sururu e peixe com molho”, diz Isaura, mexendo um panelão gigantesco de vatapá.  Para quando Caetano Veloso chegar, ela prepara um prato especial: moqueca de saúna. “Caetano é igual a mim, adora peixe, mas peixinho pequeno, que é mais saboroso”, revela dona Canô.

Ninguém ouse falar com a aniversariante apenas a respeito dos dois filhos famosos. Ela faz questão de se referir aos oito rebentos com igual interesse e dedicação. Faz cara de zangada se alguém insinua que haja alguma preferência em relação a algum deles: Clara Maria, Mabel, Rodrigo, Roberto, Nicinha, Irene, Caetano e Bethânia. “Oxente, Ave Maria, não destaco nenhum, sou mãe de todos eles”, diz. “Fisicamente, Bethânia foi a que mais saiu parecida comigo”, reconhece. “Ela liga para mim todo dia, esteja onde estiver, no Rio de Janeiro, em Salvador, na Europa ou no Japão”, conta.

“Os artistas já chegaram?”, pergunta um repórter lá fora, referindo-se a Bethânia e Caetano. Mas quando os dois chegarem, não haverá nenhum alvoroço adicional na casa ou na vizinhança. Em Santo Amaro, celebridade mesmo é dona Canô. São para ela todas as atenções, todos os sorrisos, todas as reverências. Bethânia chega por volta do meio-dia, numa Pajero prata. Vem de cabelos presos num coque, vestida inteiramente de branco, a exemplo da mãe e dos demais convidados para a festa.

A essa hora, dona Canô está de novo recolhida ao quarto, descansando, em atenção a um pedido da filha Mabel. “Agora eu vou dar uma sumida, depois eu volto”, ela avisara. Quando reaparece, dona Canô reclama do barulho dos carros de propaganda que derramam decibéis pelas ruas estreitas de Santo Amaro. “São uns monstros!”, exclama, criticando a praga que toma conta da cidade. Os carros de som, com anúncios estridentes das lojas do pequeno comércio local, usam hits de bandas de forró eletrônico como fundo musical. A janela do quarto de dona Canô dá para a rua e, assim, seu descanso é prejudicado pelo barulho ensurdecedor.

“As músicas de hoje são todas assim, todas iguais, com as mesmas letras, o mesmo ritmo, uma coisa só, é tudo muito ruim”, critica dona Canô. “Quando eles vão para a televisão, botam as moças pra dançar e elas ficam lá rebolando, não gosto”, reclama. Indagada se a mesma observação valeria também para a chamado axé music, a indústria musical que a Bahia exporta para todo o Brasil, dona Canô desconversa: “Não sei nem dizer se o axé é bom ou não, não ouço muito”, esquiva-se. Em seu quarto, numa pequena estante, existe uma seleta coleção de CDs, em que prevalecem os discos de cantores e divas da “velha guarda”. “Gosto muito de Dalva de Oliveira, mas não há no mundo nenhuma voz como a de Bethânia”, diz ela. “Considero minha mãe um elemento da natureza: assim como existe o ar, o fogo, a água e a terra, existe dona Canô”, retribui a filha cantora.

Caetano, que em breve dará um bisneto para dona Canô, chega bem depois do almoço, por volta das 16 horas. A mesa é novamente posta para ele. Antes de comer, pede a benção à mãe e se derrete para a barriga da nora, Clara, mulher do filho Moreno Veloso, grávida de cinco meses. Da cozinha, vem a bandeja com moqueca de saúna, preparada por Isaura. “Uma das lembranças mais fortes que trago da infância é o cheiro dessa moqueca, vendida no mercado de Santo Amaro”, recorda Caetano. “Outra lembrança forte é minha mãe ouvindo rádio, cantando as músicas da época, me ensinando a amar a música brasileira”.

Enquanto o filho mais ilustre de dona Canô come, o movimento de seguranças na rua denuncia a chegada daquele que ainda é considerado o homem mais poderoso da Bahia: o senador Antônio Carlos Magalhães, o ACM. A família se agita para recebê-lo. Uns correm para trocar de roupa, outros se apressam em avisar a matriarca, que está tomando banho. Caetano, porém, este não se mexe da cadeira. Continua a saborear, sem pressa, sua moqueca de estimação. A casa inteira capricha nos rapapés a ACM e Caetano permanece à mesa, de costas para o senador, como se nada estivesse ocorrendo em volta. “Eu adoro esta moqueca”, apenas comenta.

Nem os olhares severos de Bethânia, nem a convocação expressa da mãe, nada tira o compositor da mesa. “Ele não vai sair da toca?”, interroga enfim dona Canô sobre o filho, que há cerca de uma hora não larga o prato. Quando o desconforto da família já se torna evidente, Caetano finalmente levanta e, meio a contragosto, cumprimenta ACM, com um protocolar aperto de mãos. “Ih, preciso lavar minha mão, ela está cheirando a peixe”, diz Caetano na hora, com indisfarçada malícia. O senador, constrangido, sorri amarelo.

Mas são quase cinco da tarde e é tempo de ir à igreja, para a missa anual em homenagem a dona Canô. Uma banda de música escolta a Zafira que conduz a aniversariante. O automóvel segue pelos dois quarteirões de paralelepípedos que separam a casa dela da belíssima Matriz de Nossa Senhora da Purificação. A igreja, uma construção do início do século 18, possui uma notável coleção de imagens sacras e painéis de azulejos. A matriz lotada aplaude de pé a entrada de dona Canô, enquanto o coral entoa os versos de “Luz do sol”, canção de Caetano Veloso. “Dona Canô é beleza pura”, diz no sermão o celebrante, frei Edilson Bezerra. Na primeira fila, Caetano e Bethânia sorriem. Mabel enxuga as lágrimas.

Depois da missa, a cidade se aperta no quintal de dona Canô para cair no samba. O resto da noite é de muita música, comida e festa. Quatro baianas a caráter preparam acarajés, enquanto garçons passam com bandejas fartas de caruru, abará, arroz branco, banana assada e vatapá. Barraquinhas, iguais às das quermesses nordestinas, distribuem quilos de pipoca, espetinhos de churrasco e queijo-de-coalho assado aos convivas. Correm também litros de “roska”, que é como na Bahia se chama a batida de vodka feita com frutas naturais, ao gosto de cada um: acerola, abacaxi, umbu-cajá, limão ou tangerina.

Dona Canô está feliz. Se pudesse, diz que abraçaria todo mundo, um por um. Mas está cansada. Dorme costumeiramente às oito da noite e, afinal, aquela festa não tem hora para acabar. Ainda assim, não se furta a distribuir sorrisos e acenos, com a mesma doçura com que tem recebido a todos, desde as primeiras horas da manhã. Contudo, todos querem tocar em dona Canô, o que por vezes lhe deixa na pele fina dos braços alguns hematomas. “Dona Canô existe mesmo, é de verdade, é de pegar?”, já perguntara, na missa, frei Edilson, antes de ela ouvir, pela segunda vez naquele dia, o “Parabéns a você”. “Existe sim, mas é preciso pegar nela como quem pega na asa de um passarinho em pleno vôo”, ele próprio respondeu. Dona Canô sorriu, comovida. São muitas felicidades. Muitos anos de vida.


Texto publicado em 2005, na revista Contigo!

 

Autor: Lira Neto

Lira Neto, 54 anos, é doutorando em História na Universidade do Porto (Portugal), mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Ganhou quatro vezes o Prêmio Jabuti de Literatura e uma vez o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Em 2015, 2016 e 2018, foi writer-in-residence e ministrou aulas de história e cultura brasileiras na Portuguese School do Middlebury College, em Vermont (EUA). É autor, entre outros livros, da biografia Getúlio, publicada em três volumes; Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão; Uma história do samba: as origens; e Maysa: Só numa multidão de amores, todos editados pela Companhia das Letras.

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