“Quem é ateu e viu milagres como eu”

Sobre as escolhas intelectuais e metodológicas para escrever a biografia de Padre Cícero


Nascido na cidade litorânea de Fortaleza, de costas para o sertão, demorei a compreender o significado da figura histórica de Padre Cícero e, em especial, de sua legião de romeiros. Durante muito tempo, escudado na prepotência de indivíduo citadino, atribuí o fenômeno dessa devoção cabocla aos efeitos da ignorância e do fanatismo alheios. Por esse entendimento, Cícero Romão Batista representava, para mim, a figura arquetípica do embusteiro sem escrúpulo, explorador de ingenuidades, velhaco obstinado em cometer imposturas.

Eu estivera no Cariri, de forma geral, e em Juazeiro do Norte, de modo específico, meia dúzia de vezes. Por aquelas cercanias, ao lançar os olhos em derredor, só conseguia divisar o cenário de múltiplas explorações – mercantis, políticas e religiosas – em torno da arraigada fé popular em Padre Cícero. Influenciado pelas leituras juvenis de uma bibliografia pretensamente crítica e com fumos de científica, amparava-me no jargão de época para carimbar a pecha de “alienadas” às multidões que louvavam a memória de um falso milagreiro.

Mesmo quando decidi escrever a biografia do sacerdote, há pouco mais de dez anos, ainda não fazia do personagem – e, principalmente, de seus peregrinos – um juízo muito melhor e algo distante disso. Havia me deparado, é verdade, aqui e ali, com outras possibilidades de interpretação, menos mecanicistas e mais sofisticadas do ponto de vista histórico, social e antropológico, em especial no que diz respeito às grandes romarias. Meus preconceitos, contudo, teimavam em falar mais alto.

Aos poucos, o convívio e a amizade com estudiosos e pesquisadores como Gilmar de Carvalho e Renato Casimiro terminaram por me impelir, necessariamente, para uma abertura do olhar e para uma redefinição de foco. O trabalho afetuoso de Gilmar em torno do universo da cultura popular caririense e o empenho de Renato em documentar e preservar a memória de sua gente chamaram minha atenção para novos matizes e probabilidades de análise. Sem a interlocução permanente e particularizada com um e outro, Gilmar e Renato, talvez eu permanecesse cego ao que me parece, hoje, por demais óbvio.

Foi a espécie de imersão etnográfica no território romeiro que me possibilitou, em definitivo, a aventura de um precioso – e epifânico – exercício de alteridade

Por influência de ambos, senti-me compelido a acessar novas fontes, conhecer pontos de vista distintos, incorporar outras vias de conhecimento. Contudo, foi a espécie de imersão etnográfica no território romeiro que me possibilitou, em definitivo, a aventura de um precioso – e epifânico – exercício de alteridade. Já durante a fase inicial da pesquisa que resultou no livro Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão (Companhia das Letras, 2009), tive a oportunidade de intuir e compreender um aspecto para mim até então insuspeitado da crença sertaneja: a insubmissão.

Não sou, adianto, um homem religioso. Costumo repetir e adotar, como se fosse um mantra, a sentença uma vez dita, em tom de autocomiseração e blague, pela conterrânea Rachel de Queiroz: “Deus não me deu o sentimento da fé”. Portanto, continuo a não crer em milagres, a não admitir hóstias convertidas em sangue, a não acreditar em conversações com o Além – e a não confiar na existência do próprio Além.

O que passei a conhecer e a admirar foi a visceralidade da fé cabocla, esse sentimento milagroso brotado no calor da caatinga e do agreste, que não se deixa submeter à assepsia do rito e ao higienismo das celebrações litúrgicas oficiais. Para os romeiros, de pouco – ou quase nada – importa a chancela eclesiástica a Cícero Romão, padre que morreu maldito pelo clero, proscrito pela própria Igreja. Canonizado pelo povo, o lugar de seu culto não cabe no altar dos templos imaculados. “Padre Cícero já é santo dentro do meu coração”, disse-me certa vez uma romeira, quando lhe indaguei sobre a possibilidade de reabilitação canônica de seu protetor e “padrinho”.

Interessava-me, nesse confronto dos textos produzidos por apologistas e detratores, devotos e iconoclastas, perceber os marcos discursivos do grande conflito de interpretações em torno do controvertido Padre Cícero

Alumiado por essa nova possibilidade de apreensão do fenômeno, voltei-me de forma mais circunstanciada à vasta bibliografia sobre o tema, sabidamente dividida entre relatos hagiográficos, de um lado, e tentativas de radical desconstrução, de outro. Interessava-me, nesse confronto dos textos produzidos por apologistas e detratores, devotos e iconoclastas, perceber os marcos discursivos do grande conflito de interpretações em torno do controvertido Padre Cícero.

Isso, vale dizer, não para assumir determinado partido, adotar este ou aquele viés em particular – e muito menos para assumir uma postura de pretensa equidistância e objetividade, atitude tributária do mais obsoleto positivismo. Mas, antes, para abraçar um procedimento radicalmente oposto: promover a altercação de vozes variadas e antagônicas, para desse modo tentar cultivar uma percepção polifônica e dialógica do problema. Aproximar-me, assim, das muitas contradições e dualidades que envolvem Cícero Romão Batista, com o objetivo de retratá-lo por meio da estratégia que Peter Burke, por certo inspirado em Mikhail Bakhtin, considera uma das perspectivas mais férteis a serem explorados pela nova escrita da história: a heteroglossia.

Uma vez decidido a lastrear a pesquisa nessa multidão heterogênea de clamores e pontos de vista, contemplando a multivocalidade presente nas fontes escritas, não poderia também prescindir da rica tradição oral e da cultura popular produzida em torno do biografado.

Uma vez decidido a lastrear a pesquisa nessa multidão heterogênea de clamores e pontos de vista, contemplando a multivocalidade presente nas fontes escritas, não poderia também prescindir da rica tradição oral e da cultura popular produzida em torno do biografado. Recorri a cordéis, benditos, xilogravuras, panfletos e jornais de província, para me assenhorear das representações coletivas que fizeram do homem Cícero Romão Batista o venerado “Padim Ciço”.

Para tanto, tornava-se indispensável não cair na ilusão de querer separar, cirurgicamente, verdade e mito, lenda e história, realidade e fabulação, mas sim tentar deslindar as fissuras e deslizamentos desses campos, que por vezes – e principalmente no caso de Padre Cícero – se retroalimentam como um jogo de vasos comunicantes. O intuito, portanto, não era mais construir, referendar e impor certezas prévias, mas semear todo um inventário de dúvidas, improbabilidades e interrogações.

Aproximar-se de um novo tema de pesquisa, a respeito do qual até então não tivera maiores e mais sólidas informações preliminares, sempre me pareceu uma atitude profundamente sedutora. Como pesquisador, sou movido pelo nomadismo e por aquilo que Carlo Ginzburg chama de “euforia da ignorância”, ou seja, a estimulante sensação de não saber nada a respeito de algo, mas ao mesmo tempo estar aberto e disponível para o instante de começar a aprender alguma coisa sobre aquilo. “Creio que o intenso prazer associado a esse momento contribuiu para impedir que eu me tornasse um especialista, que aprofundasse um campo bem delimitado de estudos”, escreveu Ginzburg.

Cito o autor de O fio e os rastros por recordar a tarde em que telefonei para um autodeclarado especialista, afim de consultá-lo, à época, sobre a procedência dos estudos acadêmicos mais relevantes a respeito de Padre Cícero. Do outro lado da linha, veio a repreensão, quase em tom de descompostura. Eu deveria deixar de “pular de galho em galho, como um macaco que mal reconhece a própria árvore e quer se meter a explorar a floresta”.

Em se tratando de Cícero Romão Batista, foi exatamente a incômoda constatação de meus preconceitos iniciais – derivados do total desconhecimento sobre o tema –, que me conduziu ao trabalho arrebatador de biografá-lo.

Em se tratando de Cícero Romão Batista, foi exatamente a incômoda constatação de meus preconceitos iniciais – derivados do total desconhecimento sobre o tema –, que me conduziu ao trabalho arrebatador de biografá-lo. Nesse aspecto, uma feliz coincidência se mostrou decisiva para o desenrolar da pesquisa. Em 2001, o então cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação da Doutrina da Fé e futuro Bento XVI, encaminhara à Nunciatura Apostólica do Brasil uma correspondência em caráter reservado, tratando da pertinência de uma possível reabilitação canônica de Padre Cícero.

Diante do avanço dos neopentecostais no país, Ratzinger recomendava a reabertura dos arquivos históricos sobre o sacerdote que, embora banido em vida do seio da Igreja Católica, continuou mesmo após a morte a arrebanhar milhões de fiéis e romeiros. Padre Cícero seria um “antivírus contra os evangélicos”, como pouco mais tarde viria a admitir um dos mais entusiasmados defensores da reabilitação – o bispo do Crato, Dom Fernando Panico –, em entrevista ao New York Times, explicitando o caráter de “guerra santa” a compor o pano de fundo do litígio.

A consequente reabertura dos arquivos históricos relativos ao banimento de Padre Cícero, promovida com o aval de Roma e confiada a uma comissão interdisciplinar de estudos, coincidiu com o exato momento em que me preparava para ir a campo. Embora oficialmente restrita ao grupo de especialistas encarregados do trabalho de revisão histórica, essa documentação chegou-me às mãos após delicado esforço de convencimento e investigação.

Com base naqueles velhos papéis, alguns carimbados com o selo do Arquivo Secreto do Vaticano, tive acesso a informações antes circunscritas a pequeno número de detentores.

O material expandiu os limites e possibilidades da pesquisa. Com base naqueles velhos papéis, alguns carimbados com o selo do Arquivo Secreto do Vaticano, tive acesso a informações antes circunscritas a pequeno número de detentores. Somou-se a isso a copiosa documentação que me foi confiada pelo coordenador do Departamento Histórico Diocesano do Crato, padre Roserlândio de Souza: a transcrição paleográfica de cerca de novecentas cartas contidas no acervo da instituição, incluindo mensagens confidenciais trocadas à época entre os protagonistas da querela religiosa envolvendo Cícero Romão Batista.

A consulta minuciosa à íntegra do extenso inquérito eclesiástico movido pela Igreja contra Padre Cícero também permitiu-me alargar os horizontes da empreitada. Em meio à papelada, sobressaía a transcrição do interrogatório das beatas e demais religiosos acusados de conluio com o sacerdote, investigado sob acusação de professar falsos milagres. O documento patenteia um riquíssimo debate entre dois universos mentais conflitantes. Representados, de uma parte, pelo catolicismo popular nordestino impregnado de pensamento mágico das testemunhas e denunciados; e, de outra, pela religiosidade canônica dos interrogadores investidos da autoridade e da missão de inquiri-los.

Aproximei-me de toda essa procela de fontes, como bem sugeria Georges Duby, com o espírito de investigação de um antropólogo que tenta interpretar uma dada cultura que lhe é absolutamente estranha.

Aproximei-me de toda essa procela de fontes, como bem sugeria Georges Duby, com o espírito de investigação de um antropólogo que tenta interpretar uma dada cultura que lhe é absolutamente estranha. Não alimentava a intenção de produzir revelações mirabolantes ou reviravoltas históricas. Desde aquele momento, já vinha me libertando progressivamente do vício jornalístico de me cobrar ineditismos factuais a cada investigação. Uma distorção profissional só comparável, em sua ingênua pretensão, ao uso e abuso do detalhe e da minúcia por si mesmos – e não pelo recurso de trocar o macro pelo micro para iluminar pormenores do cotidiano carregados de sentido: modos de vestir, comer, morar, viver, agir, amar e enterrar os mortos.

Perseguindo as lições de Marc Bloch e Walter Benjamin, o desafio que norteou os rumos da pesquisa foi o de me pôr à prova quanto à capacidade de fazer perguntas atuais a documentos empoeirados, para produzir novos enigmas e problemas. Também o de ler a contrapelo os testemunhos históricos, para fazer brotar deles informações que os próprios autores não tencionavam fornecer. “Até nos testemunhos mais resolutamente voluntários, o que os textos nos dizem expressamente deixou de ser hoje em dia o objeto predileto de nossa atenção”, proferia Bloch. “Apegamo-nos com muito mais ardor ao que ele nos deixa entender, sem haver pretendido dizê-lo”.

O que o julgamento etnocentrista do clero da época poderia nos revelar sobre o modo como se construiu, à revelia das autoridades eclesiásticas, a devoção popular ao taumaturgo do Juazeiro?

Por essas e outras, nunca acreditei em biografias definitivas. Pelo simples fato de que cada época terá sempre novas indagações a fazer sobre o biografado e, às vezes, sobre as mesmas fontes. Daí decidir me lançar ao desafio de preencher a ausência, até então, de uma biografia moderna dedicada a interrogar Cícero Romão e seu tempo. O que o julgamento etnocentrista do clero da época poderia nos revelar sobre o modo como se construiu, à revelia das autoridades eclesiásticas, a devoção popular ao taumaturgo do Juazeiro? Qual o devido peso e significado, para a Igreja do século XXI, das tentativas recentes de reconciliação das sacristias com os romeiros?

Ao optar pelo método biográfico, antevia algumas incompreensões e resistências por parte de setores acadêmicos mais conservadores. Pelo menos entre aqueles ainda refratários às novas possibilidades e práticas historiográficas, que não mais opõem de forma binária, como inconciliáveis, os campos da análise estrutural e da narrativa.

O fato de as centenas de notas de referências às fontes terem sido retiradas da edição comercial de Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão contribuiu, sem dúvida, para intensificar esse tipo de ruído. Penitencio-me de ter tomado tal decisão unilateralmente, a despeito das recomendações em contrário de meus editores. Contudo, a excelente recepção que a obra obteve por parte da crítica e do público apascentou um pouco as minhas culpas nesse sentido.

Biografar Padre Cícero, por exemplo, foi acima de tudo biografar o momento em que uma Igreja hierarquizada viu-se confrontada pelas contingências insubmissas da fé sertaneja

Todavia, no trabalho subsequente, a biografia do ex-presidente Getúlio Vargas, cuidei de explicitar a envergadura, a diversidade e a consistência do material consultado, o que ajudou a chamar maior atenção de historiadores e integrantes do mundo acadêmico – a exemplo de Boris Fausto, Elias Thomé Saliba, Heloisa Starling, Kenneth Maxwell, Lilia Schwarcz, Maria Celina D’Araújo e Marly Mota, entre outros – para o rigor metodológico envolvido em uma obra do gênero. Afinal, ao se produzir uma biografia, não se está buscando apenas reconstituir a trajetória individual de um determinado personagem. Biografar Padre Cícero, por exemplo, foi acima de tudo biografar o momento em que uma Igreja hierarquizada viu-se confrontada pelas contingências insubmissas da fé sertaneja.

Um site evangélico já insinuou que eu deva ter sido regiamente recompensado por Roma, em troca de ajudar na reabilitação de Cícero Romão Batista. Enquanto isso, artigo publicado em um jornal de Juazeiro do Norte já me acusou de ter escrito um panfleto para desmoralizar a memória do Padim. Já houve leitores, devotos do mesmo Padre Cícero, que afirmam ter lido a biografia como uma comprovação de que o biografado foi, realmente, um santo. Mas também existem os que me parabenizam por ter desmascarado um falso fazedor de milagres.

Cabe ao leitor, por óbvio, um papel preponderante na produção de sentidos de um texto. Não fosse assim, como entender que o livro tenha sido elogiado e incriminado, por uns e outros, a partir de pretensas virtudes e supostos pecados radicalmente opostos?

(Texto publicado originalmente na Revista do Dragão, Fortaleza, maio de 2018)


O Livro:

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Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão                        (Companhia das Letras, 2009)